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Só mais tarde

Meu tempo é hoje Me faço, desfaço e enlaço  agora não me contenho Do passado, só me refaço  Como presente, só me tenho Docemente penteio dessa árvore, os cabelos Dos frutos que caem:  memoráveis lembranças saem Nas lambanças sapateio,  aqui o pretérito dança Se colho, me recolho  como e planto! - claro Que é pra frutificar Se no escuro me perco - claro Que é para depois me reencontrar Mas aí sou outra - mais que claro: Problema não há Existo e me fixo neste fugaz instante O paradoxal é minha espinha dorsal Faço do há pouco, um aprendizado Coisa do cão seria morrer  No passado ou  costurar futuro na pele do presente  - dói, sente? Passado o presente amarrotado, futuro adiante ante a esperançosa pupila, não sem antes, pensar Reflitir,  aprender para desconcluir: Seria eu a louca memória do por vir? Só sei que não há desafio que não en frente Sigo linha reta Mesmo que aos tropeços, pulo os calos da terra  Aqui no agora a minha vida  Ce...

Sem rima

Uma vida sem ramo é um barco sem remo. Um mundo sem Rama é um barco sem rumo. 

Jardim da Ostentação

Era quase noite. As corujas preparavam as suas vestes; e os vagalumes, prestes a acender, seriam as estrelas da madrugada. Os lobos organizavam a jogatina; e a cobra - a dançarina - estava tonta, era o seu dia de estreia. Já aquela árvore... apenas se consolava. Há muito, ela ali estava. Sempre a esperar. Sonhava com os astros e tinha, em sua semente, uma ideia frequente: Um dia, me plantarei lá. E, assim, ela tinha passado muitos anos em desapego. De folha em folha,  foi-se a vaidade. De escolha em escolha, ganhou maturidade. Mas mal sabia ela  que aquela noite era especial. A sua Lua brilhava forte; e Gaia, para a sua sorte, percebeu a sua grande dedicação. Do fim da história,  ela só lembra uma parte: Dormiu na Terra, mas acordou em Marte. 

Questionamentos

Ser correto ou ser concreto? Ter dúvida ou ter dívida? Ser diferente, ser divergente? Sê clemente! Sê crescente!

Você

Você, que como água se decanta, levanta como fogo: encanta com o sorriso de quem faz o que seria impossível não fazer.

A linhagem e a linguagem

 Eram tempos de modernidade. Mas a calamidade era intelectual de tal maneira que a existência era umbral. De um lado, os vogálicos; do outro, os consoantes. Em constante exclamação, cada qual era vulcão em congelante erupção. Armados com suas crases, os vogálicos atacavam. Circunflexos, os consoantes revidavam. E, assim, a ortografia era uma sentença... Até que dois extremos se viram em atração: O destino era certeiro e se pôs em oração. O sujeito era bem simples; já a outra, advérbio. Mas, em tempos de advento, a conclusão era provérbio. Em manhã de culto oculto, nasceu em tom discreto. Era sadio, era menino. E o nomearam “Alfabeto”.

Sabedoria

 Saber não é falar difícil, mas apagar o resquício de todo e qualquer vício que afasta você de você.

Palavras

 Ah, se toda preposição fosse operação de adição! Eu somaria todas as palavras e finalmente alcançaria os Céus: veria a casa de eus meus . De uso em uso, ganho mais mobilidade e me desfaço da saudade: Sou só reflexão. Pois aquilo que reflete me remete ao que sou.

Saudade

Ao templo da idade, regresso à Vontade. Por um feixe de luz  da Eternidade, vejo quadro assinado: À maturidade.

Apenas escute

Você é capaz de escutar? O palpitar dos nossos corpos Enquanto se desfazem em mil estrelas: Poeira por todos os lados ao se colapsarem Surdas, perdidas no universo do desejo? O amor, faço por palavras  Em rasantes razoavelmente Estranhos, no mínimo desajeitados. Palavras escavadas de pensamentos  longamente meditados. Mas bebo em silêncio, mãos confiantes o teu sumo que embriaga – E não é coisa pouca!  E se sumo...desapareço em meio ao que sua alma espalha enquanto  meus sentidos, embaralha Assumo! E curta, pois de curta: a vida! Saiba: Morremos nus, pela a boca Renascemos crus  Pelos pelos que se arrepiam Na escuta. E tome um beijo úmido Na nuca - nessa noite escarlate  Para calar-te  a boca Para não dizeres, hoje, nunca E nada... Nessa vida paga Isto: sentir de uma vez, só tudo o que já pôde ser sentido! Uma vez que se tenha junto a outro ser renascido, o que certamente nada apaga! Nem de fato, essa chama. Nem meu nome chama! Na caverna dos palatos, ...

Amor Universal

Ainda somos distância, amor. Ainda somo distâncias. Mas por favor, me espera na memória das noites de eclipse, de quando fomos dois corpos celestes no céu dos lençóis. Lembra? Me espera na memória das nossas superfícies se colidindo, crateras por todos os poros. A gravidade nos atraia rumo ao centro, à unidade. Me espera na memória  de quando sorvi todo o magma que havia no teu nú                                 cleo. Bebi teus desa                         fogos. E tu, sedenta por caldas de cometa no teu riso estelar, provou dezenas de asteróides meus. Por favor, me espere na memória de que sobrou de nós quase nada. Somos planetas… cada um foi pro seu lado cumprindo afazeres do Sistema. Mas, da nossa colisã...

Manchete

Geovana sabia amar Amava magistralmente Poucas pessoas amavam como Geovana que era íntima do amor. Para ela: O amor não era como nos livros O amor se fosse uma pessoa, seria míope e perneta O amor vendido, era como fotografia retocada no Photoshop O amor quando puro e amadurecido, era dotado de uma simplicidade cotidiana descomplicada O amor era mais amigo do tempo do que se é costumeiramente dito por aí O amor podia ser visto mesmo em pocilgas e sarjetas O amor era de uma crueza intraduzível O amor era palpável, verdadeiro e dotado de uma dimensão da realidade que talvez não coubesse em metáforas laboriosas. Dia desses Geovana foi encontrada inconsciente, nocauteada, com um calhamaço romântico na mão! Fora sufocada por um bando de poetas.

Relatividade - Escher

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Labirinto sentimental

  Num Escher labiríntico, nós vagantes Desafiamos a gravidade  Grave agora, só o deparar com o minotauro. Talvez não haja luz no fim de tudo Quem sabe, não haja fim de tudo se houver luz? Provavelmente existiria esperança  se apanhassemos a luminescência  neon do cartaz de saída,  como quem caça vagalumes Antes que o clarão se apagasse. De que tipo de saída se trata? E enquanto perambulamos desencontrados Nos perguntamos, rindo do chiste (pois só o riso salva): Quem de nós dois pegará o tal minoutauro pelo chifre?

Planetas também amam

Meu amor é intergalático Navego no cosmo pensando: Como te alcançar  sem antes cavalgar estrelas? Como te beijar sem primeiro contornar Os anéis de saturno? Como concretizar o gesto de amor Longe das galáxias das suas íris? Como fazer firme o nosso laço  Se tem a consistência leitosa da Via láctea? Como diminuir a distância entre planetas em lados  Distintos do universo? Se meus braços curtos só alcançam minha  própria atmosfera? Mergulharei no buraco negro  Inconsciente  onde somos reles humanos Regidos por leis mortais  Vivendo um amor meteórico e etéreo explodindo e nascendo planos Pois somos feitos de cósmica poeira. Ai se eu tivesse ao alcance das mãos A válvula, que do universo abrisse a torneira Seria eu, o primeiro a : tendo reduzido, entre nós o espaço,  quando estivessemos, de distância, um ano luz ou um passo dizer: te amo.

Amor, arte

Num dia inspirador De amor eu suspiro Por arte  Pois arte respiro Num dia de ensimesmamento Eu não lamento De arte  Arte vivo e sustento Num dia de saudade Coração a dentro arde E a arte arte me invade Num dia de bruma Não quero que o dia durma Pois arte Arte me arruma Num dia belo Não resta farelo Na arte Arte eu cinzelo Num poema assim Sou um arlequim Faço da arte A vida enfim.

A caneta culpada

Jeferson escreveu um poema de amor e os versos quando se deram conta do conteúdo, levantaram-se solenemente, abriram a janela e se defenestraram. Cairam de uns 20 metros de altura. O homem não tinha culpa se hoje a calçada estava riscada de giz e com faixas pretas e amarelas cercando as letras garrafais mal escritas - de ansiedade - que agora estampavam o chão espatifadas de fora a fora. Ouvia-se as sirenes na rua. Não era uma pessoa de declarações chamativas e despudoradas. Mas aquele era o momento crítico, a oportunidade decisiva, o time perfeito.   O poema só fugiu para não ser relegado aos cantos obscuros de cadernos abandonados, que é o que acontecia de costume. Ou talvez, surpreendido pelo conteúdo intenso, tenha se  desesperado, e sem saber o que fazer PAF! Ido de encontro ao destino cruel. Jeferson havia desaprendido o modus operandi de materializar as palavras no mundo. Seus olhos não. Eles não mentiam e diziam muito.  Esquadrinhavam o rosto da pessoa amada ...
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No descomeço era o verbo - Manoel de Barros

No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo. O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos . A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira. E pois. Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio. (Manoel de Barros)

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 O blog Palavrarismos é um espaço prático de literatura digital. Neste sítio, escrever é literalmente uma ação sináptica, visto que a estrutura dessa narrativa tem a prerrogativa ideal de se abrir para infinitas possibilidades e caminhos através de hiperlinks. Logo, o(a) leitor(a) tem papel ativo na acontecitura da sua própria rota, clicando nas palavras destacadas nos textos, que funcionam como as próprias janelas do pensamento humano. Além disso, os textos que compõem essa narrativa por vezes fazem referência à expressões de outros idiomas (contando também com exercícios de tradução) e/ou a elementos de outros campos artísticos, como a pintura e a música, bem como textos próximos à filosofia e de outras esferas do conhecimento humano. Essa pluralidade de referências servem como metáforas para o entendimento do próprio eu do poema, que acaba sendo parte também do(a) leitor(a). Faça o seu caminho nesta narrativa em rede! Para iniciar essa experiência, clique no botão INÍCIO .