A caneta culpada

Jeferson escreveu um poema de amor e os versos quando se deram conta do conteúdo, levantaram-se solenemente, abriram a janela e se defenestraram. Cairam de uns 20 metros de altura.

O homem não tinha culpa se hoje a calçada estava riscada de giz e com faixas pretas e amarelas cercando as letras garrafais mal escritas - de ansiedade - que agora estampavam o chão espatifadas de fora a fora. Ouvia-se as sirenes na rua.

Não era uma pessoa de declarações chamativas e despudoradas. Mas aquele era o momento crítico, a oportunidade decisiva, o time perfeito.  

O poema só fugiu para não ser relegado aos cantos obscuros de cadernos abandonados, que é o que acontecia de costume. Ou talvez, surpreendido pelo conteúdo intenso, tenha se  desesperado, e sem saber o que fazer PAF! Ido de encontro ao destino cruel.

Jeferson havia desaprendido o modus operandi de materializar as palavras no mundo. Seus olhos não. Eles não mentiam e diziam muito.  Esquadrinhavam o rosto da pessoa amada e se fixavam na alma. Com o olhar prensava-a contra a parede, fazendo-a verter, inadvertidamente, todos os segredos. Não, é claro, sem que ele fizesse algum esforço, mas os olhos, os dele e o da pessoa em questão, de regozijo até ronronavam.

O coração funcionava meio torto, às vezes de modo errático e inconsciente, não conseguia  levar à caneta, o sentimento. A pobre coitada é que não sabia conduzir amores como se fazia  antigamente. 

E se há culpa na história, é exclusivamente do objeto. Não era um suicídio e sim um homicídio culposo. O que se pode constatar é que Jeferson, como qualquer um, sabia amar, mas a caneta transportava a tinta, e a tinta definitivamente não.

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