Fragmento esquecido I
Amor, por tempo não te escrevo. Cartas tenho escrito apenas para mim, que eu precisava-me remetente-destinatariar. Mas hoje li uma coisa no livro de Lemus - que não existe ainda, calma - a ver se sano um pouco a loucura desses tempos foscos. Esse livro é feito de coisas que eu mesmo escrevo, mas esqueço de tantos fragmentos que acabo sendo guardador de segredos de mim mesmo. Aqui vai:
"'Eu tenho certa atmosfera de pensar que na maior parte do tempo apenas devo perceber onde estou, engolindo a paisagem com o corpo. Agora mesmo apreendo as entranhas do verbo ser. Sei sentir a maresia penteando o mar porque uma vez brinquei de pegar emprestado a pele das ondas. Hoje farejo a maré de sensações táteis com alguma maestria. É por isso que ainda olfato bem, mesmo à essa idade'. - riu-se o mestre.
Lemus refletiu o sorriso, mas calou-se arregalado e distante, a tentar engolir aquelas palavras. Eram carnudas de significado e prenhas de pensamento em ânsia de brotar. O garoto queria deveras a pele das ondas."
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